Não entendo o motivo de soltarem fogos em jogos de futebol, é um desperdício. Além de assustarem todo mundo. Por que o fazem? Será que pensam que todos querem ter conhecimento do jogo? De quem ganhou, quem perdeu? Ou que o mundo compartilha esse gosto por vinte pessoas correndo atrás de uma bola? Enfim, não vem ao caso agora.
Encontrava-me no teatro durante o último jogo. Depois, fui a uma lanchonete. O foda é que não me liguei na possibilidade de encontrar torcedores fanáticos discutindo sobre o jogo. Foi, claro, o que aconteceu.
Sentei-me no balcão, longe das mesas lotadas de idênticas pessoas com suas idênticas camisas de times – não eram, mas foi minha impressão. Pedi uma daquelas coxinhas oleosas, uma Coca e fui feliz. Sei que essas coxinhas não são muito recomendáveis, mas essa estava particularmente gostosa, talvez porque tivesse muito recheio. Pedi outra. No momento exato em que ia mordê-la, algum filho da puta soltou um desses rojões espantosamente perto da dita lanchonete. Sim, me assustei e, como qualquer ser normal, olhei na direção do barulho. Não era um filho da puta, era uma filha da puta, cuja mãe deveria estar muito feliz quando resolveu criá-la. Cabelos pretos curtos e espetados, bochechas rosadas, pequenina. Uma graça. O único defeito visível era, claro, a camisa de torcedor. Paciência. Olhei olhei e olhei. Mordi minha coxinha pensando em morder a dela. Parecia tão suave, até infantil. Ela soltou mais dois rojões antes de eu perceber que aquele era outro defeito: a fixação doentia por explosões. Pensei não dará certo, a não ser que goste muito de outras explosões afinal, que mulher não gosta?
Voltei para a causadora do meu futuro problema de saúde, quem saberia? Olhei para os suportes das bebidas alcoólicas na parede: 51, Canarinha, Providência, Salinas. Meu deus, aquilo era uma lanchonete ou um alambique? Foi quando ouvi ‘Lu, me dá uma Salinas caprichada’ numa vozinha fina que descobri outro defeito da pequenina: uma Maria-Cachaça. Desisti. Incompatibilidade total, até na cama seria assim, muito provavelmente. Não que eu só quisesse foder, longe disso, adoro romantismo. Bem…
Ela me olhou, sorriu, eu sorri. Sem graça, pensando será que ela sabe que a olhei tanto? Logo descobri. Ela disse: gostou do que viu? e eu: ahn? e ela: vi você me olhando. Pensei já que foi tão sincera e direta, também serei: sim, gostei do que vi, mas notei algumas incompatibilidades, você bebe, torce e solta rojões, desanimei. Uma gargalhada, seguida por um sorriso. Sinceridade acima de tudo, ouvi. Sorri. Ela bebeu sua cachacinha e voltou para os amigos.
Terminei minha Coca, fui ao banheiro. Dedos e lábios engordurados, sabem como é… lavei-me, enxuguei-me e fui jogada na parede por um ser mínimo com uma força espantosa. O meu abrir de lábios para uma leve exclamação de surpresa foi o suficiente para aquela lingüinha atrevida entrar. E foi muito bom. Ela me levou para um box, trancou e sussurrou: incompatibilidade, é? talvez não. Sentou-me na tampa do vaso – quase morri de asco, desculpem, sou higiênica – enlaçou-me com aquelas perninhas e continuou a me beijar. Peguei sua cintura fina e me lembrei da camisa de torcedor. Tirei-a. Não poderia continuar com ela, entendem o que quero dizer? Vi um sutiã preto mínimo, escondendo peitos mínimos. Mínimos, verdade, mas lindos. Beijei, lambi, mordi. Ela parecia uma gatinha no meu colo, se contorcendo muito linda. Mordi o pescoço branco, deixando uma marca que deveria durar umas boas duas semanas.
Aquelas mãozinhas ávidas soltaram meu cabelo – não gosto de cabelos presos, ela disse – tiraram minha camiseta e abaixaram o sutiã. Tirar pra quê?, pensei. Senti a lingüinha atrevida nos meus mamilos dessa vez, e senti também os dentinhos mordendo, e os lábios beijando. Não emiti um ruído, um gemido, e acho que isso deixou-a irritada porque me mordeu com uma força desnecessária. Saiu um puta que pariu da minha boca, ela riu e me beijou. Não, não se desculpou, não se iludam.
Engraçado como tudo parece acontecer já planejado: ouvimos a porta do banheiro bater. Ótimo, alguém entrou, pensei. Ela também, pelo visto, porque aumentou a intensidade da esfregação em mim e, nessa hora, meninas, tive MESMO que controlar os gemidos. Ela saiu do meu colo, ajoelhou no chão e desceu. Tentou tirar minha calça, não conseguiu. Dedos muitos ávidos, muito apressados, impossível tirar uma calça como a minha: complexa. Não, não a ajudei. Ela só queria ouvir-me gemer, ou controlar os gemidos, queria fazer com que eu me fodesse, a pequena não valia nada. Puxei a dita cuja, joguei na parede e abri o fecho de seu shortinho mínimo. Sou muito experiente na arte de abrir fechos. Enfiei a mão direita dentro da calcinha e senti o paraíso sofrendo uma enchente surpresa. Comi. Agora eu havia invertido os papéis, era ela quem deveria se controlar. Ouvi mais fogos, mais rojões e me assustei. Ela tentou se aproveitar do meu momento de fraqueza, abrindo minha calça. Retirei a mãozinha absurda. Queria fazê-la gozar. Queria ouvi-la gemer mais e mais, só para aprender. Ouvi gemidos junto de pedidos de pare, por favor, não faz isso comigo, isso não é certo, não é justo – e uma porta batendo. Parei. Ela também. Nenhum ruído. Menos mal, certo? Errado. Mas ainda não pensávamos isso. Continuei o trabalho, ela continuou com os pedidos. Parei por um momento, levei meu dedo aos lábios dela, ela sugou sugou, sentiu seu próprio gosto com tanta vontade que eu também quis. Abaixei o short, afastei a calcinha, me ajoelhei – quase deitei, na verdade… – e lambi. Foi minha língua encostar e eu não sentir mais uma enchente, mas o rio Amazonas transbordando. Mordi um pouco, de leve, chupei o grelinho mais bonitinho que já havia visto e ela tremeu. Mas ainda não gozou, o que foi uma pena. Levantei-me, comi-a de novo. Meus movimentos eram comemorados com mais fogos, mais rojões. Parecia que todos lá fora queriam que acabássemos com a coisa toda de uma forma muito boa. Os gemidos da pequenina aumentaram, aumentaram os pedidos para parar, por favor, não faz isso comigo e eu ouvi passos, mas não me importei, nem ela. Ela estava gostando, pelo visto, porque os pedidos continuaram, aumentaram os gemidos, e ouvi não para, não para seguido de uma batida forte na porta – a NOSSA porta – que se abriu e nos mostrou para dois homens e uma mulher.
A vergonha me consumiu, lógico, mas não afetou a pequenina. Ela simplesmente disse saiam, por favor, eu estava quase gozando. A mulher ficou vermelha, um cara também e o outro fez uma cara de safado incompreensível (ou nem tanto). Eles se foram, a pequenina voltou a pedir para eu continuar, e continuamos. Até ela gozar. Não tive mais clima para nada, dei uma desculpa qualquer e saí do banheiro meio fugida, e da lanchonete também. Só descobri o nome dela algumas horas depois, quando vi, solitária no meu apartamento, o jornal da madrugada. Um daqueles rojões estourou o pneu de um carro, com três pessoas dentro. A polícia foi chamada, também os bombeiros e, claro, a imprensa. Marcela Marques, a pequenina, deu uma ligeira entrevista. Não sou dona dos rojões, disse, um rapaz simplesmente jogou um daqueles no carro e pronto. Conseguiu algumas testemunhas que viram (será?) o tal rapaz e tudo ficou bem, exceto com um pedestre que foi atingido por uma lasca de pneu e foi levado por uma ambulância para um hospital qualquer. Que falta de sorte.
Pequena menina travessa, nunca mais a vi. Mas lembro-me dela sempre que ouço fogos. Ou sirenes.
Por: Darla
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